Pequena Crônica Policial
Jazia no chão, sem vida E estava toda pintada! Nem a morte lhe emprestara A sua grave beleza... Com fria curiosidade, Vinha gente a espiar-lhe a cara, As fundas marcas da idade, Das canseiras, da bebida... Triste da mulher perdida Que um marinheiro esfaqueara! Vieram uns homens de branco, Foi levada, ao necrotério. E quando abriam, na mesa, O seu corpo sem mistério Que linda e alegre menina Entrou correndo no Céu?! Lá continuou como era Antes que o mundo lhe desse A sua maldita sina: Sem nada saber da vida, De vÃcios ou de perigos, Sem nada saber de nada... Com a sua trança comprida, Os seus sonhos de menina Os seus sapatos antigos!
Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes, cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.
No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam, errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruÃdo de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?
— Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.
*
Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci
Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?
— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.
Construção Um grito pula no ar como foguete. Vem da paisagem de barro úmido, caliça e andaimes hirtos. O sol cai sobre as coisas em placa fervendo. O sorveteiro corta a rua. E o vento brinca nos bigodes do construtor. Carlos Drummond de Andrade do livro Alguma Poesia, 1930

A linha
América Latina
Brasil
São Paulo
Franco da Rocha
Francisco Morato
Aqui não tem ideia torta
Se liga no papo
Não fica no centro
Fica lá na margem
Do outro lado
E pra chegar é pela linha
Estrada de ferro
Erva daninha
Que costura as periferias
A linha
nos une
Nos pune
Nos funde
No estreito gume
Da navalha
Lá não se joga a toalha
Não dá tempo
Pra ter esse luxo
Não se perde tento
Marcha-se atento
Seguindo o fluxo
tutu tutu
tutu tutu
tutu tutu
De uma ponta a outra da linha
Com um salário sombrinha
Nos equilibramos
Nos sacodes do trem
nos acordes da vida
Na linha que vibra
Seguimos o pulso
tutu tutu
tutu tutu
tutu tutu
Cada vez mais putos
Pagando mais tributos
A cada insulto
A cada pulo
A cada susto
A cada surto
A cada virada de rumo
Seguimos mudos
Colecionando a cada dia
Novos velhos corruptos
tutu tutu
tutu tutu
tutu tutu
Essa linha
Essa sina
Nos alinha
A uma lida
Assassina
E a vida?
Ah, a cada dois anos
O mesmo engodo
O mesmo engano
O mesmo nojo
Pra cima da gente
é sempre
A mesma ladainha
Que não desce
Que engasga
Como uma espinha
Na garganta
E não adianta
É na labuta diária
Que a dor estanca
Não, não não
É com a corda no pescoço
Sempre roucos
Dos gritos moucos
Reclamando do sufoco
Que não é pouco
Que seguimos sós
Desatando os nós
Emendando os pedaços
Dividindo os nacos
Ensacando os cansaços
Acumulados
Engolindo sapos
E sábado…
Ah, ainda é dia
Fica pro domingo a alegria
De algumas horas
Pra fazer as melhoras
Naquela eterna na obra
Que um dia, quiçá
Será um quarto
Só mais um puxado
Pro menino que virá
Mas até lá
Pra não morrer de infarto
Estico a linha do imaginário
Elaboro novos itinerários
Desfaço esses contrários
Desembaraço esses emaranhados
De arames farpados
Me dispo do proletário diário
E esqueço por um instante
Esse eterno calvário
De ter que resistir neste Estado ordinário
Com esse governo mercenário, temerário
E seu sistema tributário, sanguinário
Comendo todo mês
metade do meu salário, caralho!
Já não bastasse o transporte precário
Que pago caro
Pra me ser mais um enlatado
Duas vezes por dia
Me dispo de tudo isso
Pra disfarçar minha agonia
Pra me sentir menos otário
E miro meu olhar
na linha do horizonte
Que esconde o sol
Só a sombra
Cruza a linha torta dos morros
E não demora,
Daqui a pouco
A cidade acorda
Com os latidos dos cachorros
Pra começar tudo novo tudo
tutu tutu
tutu tutu
tutu tutu
Carlos Drummond de Andrade José (declamado por Gilberto Araújo) E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? e agora, você? você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama, protesta? e agora, José? Está sem mulher, está sem discurso, está sem carinho, já não pode beber, já não pode fumar, cuspir já não pode, a noite esfriou, o dia não veio, o bonde não veio, o riso não veio não veio a utopia e tudo acabou e tudo fugiu e tudo mofou, e agora, José? E agora, José? Sua doce palavra, seu instante de febre, sua gula e jejum, sua biblioteca, sua lavra de ouro, seu terno de vidro, sua incoerência, seu ódio - e agora? Com a chave na mão quer abrir a porta, não existe porta; quer morrer no mar, mas o mar secou; quer ir para Minas, Minas não há mais. José, e agora? Se você gritasse, se você gemesse, se você tocasse a valsa vienense, se você dormisse, se você cansasse, se você morresse... Mas você não morre, você é duro, José! Sozinho no escuro qual bicho-do-mato, sem teogonia, sem parede nua para se encostar, sem cavalo preto que fuja a galope, você marcha, José! José, para onde?
Gil Miri
Arte-educador por devoção, ator por necessidade vital, ambos por profissão e amante incondicional da Arte.
Quando nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai, Gil! ser gauche na vida, mas sobretudo, sou um fingidor. Finjo tão completamente que chego a fingir que sou ator, o ator que deveras sou.
E aqui é meu canto. É neste espaço sob as hélices de alguns mestres que acordo meus sonhos imaginados, reais e impossÃveis.
Quando nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai, Gil! ser gauche na vida, mas sobretudo, sou um fingidor. Finjo tão completamente que chego a fingir que sou ator, o ator que deveras sou.
E aqui é meu canto. É neste espaço sob as hélices de alguns mestres que acordo meus sonhos imaginados, reais e impossÃveis.
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